Flertando com a escrita de Roland Barthes

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Como eu sempre fico de olho no que surge na sessão de Sociologia do meu sebo favorito aqui em SP, um dia acabei descobrindo Roland Barthes que foi além escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo… enfim, foi demais e como todo bom escritor será sempre demais!
FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO é um livro que explicou com exatidão o estado psicológico retardado de um ser apaixonado, o livro descreveu da maneira mais verdadeira possível todos os estágios interiores e exteriores que se da através de uma relação amorosa.
O livro me fez lembrar de certas situações vividas, me fez pensar em quem sabe amadurecer quando o assunto é amar ( ou demonstrar amor ), me fez rir e quase ( faltou pouco ) me fez chorar.

Já se perguntou porque ama a quem ama? O que torna fulana(o) tão especial?
Barthes já : “Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa e especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é o meu desejo, tanto que único: “É isso! Exatamente isso (que amo)!”

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E se o que você ( assim como eu ) pensava ser amor acabou, como acaba a sessão de cinema daquela comédia-clichê-romântica, e você ficou se perguntando como será a vida dos personagens depois da cena final, bom eu sinto muito mas pode ser que até pra eles lá frente tudo tenha acabado. Como a maioria das coisas (coisas da vida) acabam, simplesmente porque devem acabar. Se esgota, termina e pronto!
“Como termina um amor? – O quê? Termina? Em suma ninguém – exceto os outros – nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da Amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho (o outro nunca desaparece quando e como se esperava). Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim de minha história de amor: sou o poeta (o recitante apenas do começo); o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam romance, narrativa exterior, mítica.”
É quase impossível o livro não falar diretamente com o leitor, o tempo todo você vai se ver nele, ou ao menos ver quem já amou nele.Acaba sendo divertido ler toda sua historia de amor narrada pelo outro ( que nem te conheceu rs! ).
Barthes apesar de ter uma escrita direta,  mas repleta de exemplos possuía o dom do que chamava de scriptor, cujo poder único é combinar textos pré-existentes em novas formas, por isso sua obra é cheia de trechos de grandes obras, e fragmentos de lembranças que tornam ainda mais fácil a compreensão do que ele deseja transmitir.
Barthes acreditava que toda escrita se fundamenta em textos anteriores, reescrituras, normas e convenções, e que estas são as coisas às quais nos devemos voltar para entender um texto. Além disso, de forma a apontar a relativa falta de importância da biografia do autor de um determinado texto, comparado com as convenções textuais e culturais pré-existentes, Barthes afirma que o escritor não tem passado, pois nasce com o texto. Ele também afirma que, na ausência da idéia de um “autor-Deus”, para controlar o significado de determinado trabalho, os horizontes interpretativos estão abertos para o leitor ativo. Como Barthes declara, “a morte do autor é o nascimento do leitor.

E esse (ironicamente ou não) é tipo de livro que vou ler de novo, de novo de novo.É … ACHO QUE ME APAIXONEI PELO  BARTHES …

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A errância amorosa tem seus lados cômicos: parece um balé, mais ou menos rápido conforme a velocidade do sujeito infiel; mas é também uma grande ópera (Wagner). O Holandês maldito é condenado a errar sobre o mar até encontrar uma mulher de uma fidelidade eterna. Sou esse Holandês Voador; não posso parar de errar (de amar) por causa de uma antiga marca que me destinou, nos tempos remotos da minha infância profunda, ao deus Imaginário, que me afligiu de uma compulsão de fala que me leva a dizer “Eu te amo”, de escala em escala, até que qualquer outro escolha essa fala e a devolva a mim; mas ninguém pode assumir a resposta impossível (que completa de uma forma insustentável), e a errância continua.”

Queria que alguém fizesse desse livro um mega  filme, uma mega peça … uma peça já fizeram, lá no Rio ( ver sobre aqui ) .

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E pra quem quiser ler mais trechos do livro antes de correr para o sebo mais próximo, ver aqui

A necessidade deste livro funda-se na consideração seguinte: o discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação.’ R.B.

 Fragmentos de um Discurso Amoroso .  Roland Barthes – Martins Editora
Ps : A minha foto do início do post, é da 16 Edição (2001) Livraria Francisco Alves Editora S .A

4 thoughts on “Flertando com a escrita de Roland Barthes

  1. Quando quis entender um pouco sobre o amor e os espinhos que o cercam, fui procurar casais cristãos casados a 10, 20, 30, 40, 50, e 60 anos. Não li esse livro do Barthes, mas por se tratar de um tema tão central à nossa vida, eu não colocaria como verdadeiro tudo que UMA PESSOA diz. Como saber se ele amou? Há uma diferença gigantesca (que eu já a presenciei) entre amor e paixão — e os casais casados com quem conversei relataram a mesma coisa.

    1. Justo! Considero justo que seja certo ouvir a voz da experiencia ( ainda mais de quem constituiu família, e conhece na pratica diária o significado do amor ).

      Mas acredito que se tratando de todo processo entre se atrair por alguém e estar com essa pessoa de fato, esse livro resumiu muito bem os estágios.

      O amor pra cada um pode ter um significado diferente, e eu respeito isso.

      Não creio que o livro resuma o que é o amor, mas conta bem como acontecem as histórias de amor ( ou paixão, enfim … )

      Não sei se o autor amou ( ou foi só sensações próximas disso rs ) mas o livro é bom.

      Obrigada pela visita Claudio ^^

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